terça-feira, 4 de setembro de 2012

Rastros

    
   Desculpe-me, fui ser livre. Não quero nada atrás de mim a não ser meus próprios rastros. Não quero nada que me prenda nessa vida. Quero apenas viajar.
    Quero sentir o espírito das montanhas e seus picos gelados e fantasmagóricos.
    Quero sentir a alma dos oceanos e suas águas profundas e revoltosas.
    Mais que isso, quero ouvir o espírito dos ventos e sua voz que sussurra pelas árvores ou seu grito que arrebata minhas janelas.
    Como um velho amigo dizia: Quero beber o tutano da vida!
   Completo minha vida assim, que saciado de poeira e suor possa viver e então me embebedar de arte e cultura, me jogando na sarjeta da loucura e enfim encarar a face fria da morte. Cadavérica e gatuna, deslizando pelas sombras em busca da minha alma libertina.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O sopro dos anjos

 
    Milhões de cristais choveram sobre meu corpo. Os céus estavam em chamas e eu via as pessoas correndo desesperadas pelas ruas.
    Então esse era o fim? O fim de tudo o que nos cerca, o fim de nós mesmos.
    Naquele instante nada pude fazer e nada quis fazer. Refleti sobre mim mesmo e tudo o que alguma vez já havia feito. Todos os erros e acertos encharcaram meu cérebro como ondas ininterruptas de um mar bravio. Senti mais uma vez o vento açoitar minha pele frágil carregado com o cheiro da grama e das árvores. Seu assobio percorreu meus ouvidos como o uivo de mil lobos.
     Senti mais uma vez as lágrimas escorrendo por meu rosto, senti novamente meu coração se encher do fogo abrasivo da paixão, senti saudades.
     Novamente voltei ao mundo real. Cometas flamejantes cortavam o céu a centenas de milhas por hora, era maravilhoso, um espetáculo digno de aplausos, porém era o fim de tudo. Nos primeiros momentos, chovia pequenos ciscos de cristal sobre as cidades, como uma nevasca mágica e as pessoas se maravilhavam com tudo aquilo. Depois veio o sopro dos anjos, onde todas as nuvens desapareceram dos céus e o Sol cuspiu suas labaredas sobre a terra.
     Abri meus braços perante o infinito e entreguei meu corpo as chamas, não era possível correr nem se esconder. A última coisa que vi talvez fossem anjos, talvez apenas pessoas, vindo em minha direção, seus corpos se fragmentando em milhões de fagulhas diante de mim e o som estrondoso do céu explodindo.
    Depois do último bater de meu coração tudo o que restou foi escuridão.

domingo, 17 de junho de 2012

O pulso da vida

   

    Eu sou uma águia planando sob o céus de bronze. Nuvens titânicas se assomam a dimensões estratosféricas sobre a terra e seus raios retumbam das profundezas, rosnando e murmurando. O vento sussurra pelas árvores, mais e cada vez mais forte. Agora os céus são de chumbo com grandes gotas de água caindo, como cristais no céu.
     Agora sou o cervo, correndo pelo verdejante gramado, fugindo da tempestade. A grama molhada exala pelo ar seu aroma fresco e cheio de vida. As árvores parecem suspirar em agradecimento aos céus pela torrente.
     Sou o rouxinol sobre os gravetos do carvalho, cantando para a chuva e entoando junto com o cantigo das gotas sobre a terra molhada.
     Sou o lobo e o urso que saem da toca após a tempestade, farejando o frescor do ar, beber da água do rio torrencial. Fitar as corredeiras e as montanhas nebulosas. Deitar-me na relva cheia de orvalho e ver a vida natural correr. Assistir a borboleta em sua jornada, o beija-flor enamorando as pétalas e o coelho passar zunando entre uma pedra e outra.
     O pulso da vida. A mãe terra respirando, se renovando, vivendo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Doença que não sara



Tenho um amor que é uma doença dentro de mim.
Às vezes é ódio, às vezes rancor, às vezes paixão...
Paixão descontrolada. Irreversível.
Passa o tempo, mudam as estações e nada te tira da minha cabeça.
Já perdi a conta de quantas vezes tentei tirar você de cabeça, mas nada, nada, faz você sair de mim.
Não sei se é moléstia, amor ou querer. Sei que está dentro do coração e não consigo tirar pra fora.


domingo, 29 de abril de 2012

O poeta dentro de mim



Temo que em mim o poeta morreu. Já não tenho mais o paladar da poesia, nem sinto mais o sabor da solidão.
Sim, a solidão e a tristeza que por mim escreviam. Elas que através de meus olhos captavam a doçura da vida e por minhas mãos transmitiam a tristeza e os sonhos nas palavras que eu tanto era habilidoso. Agora, confesso, que o poço da virtude finalmente secou. Não talvez até nosso inverno, onde o frio traz a mim o gelado gosto da melancolia. 
Acredito que para ser poeta é necessariamente ser triste e só. Infelizmente a alegria não faz grandes poesias, mas a tristeza consagra os renomados. Sorrir é apenas esticar os lábios. Chorar, chorar é difícil. Uma lágrima representa uma alma sangrando, uma alma despedaçada.
Temo ainda que este seja um dos últimos, senão o último de meus suspiros. Pensando que a tristeza é a força motora que move meus dedos, acho agora que não tenho tristeza para escrever mas nem ao menos me sinto feliz. Não seria um ou outro? 
Adentrar novamente a escuridão seria meu retorno a prática poética? Abraçando a melancolia restituiria aquilo que em mim já me faz tanta falta quanto é escrever? 
Vazio é tudo o que sinto. Um vazio profundo e perdido dentro de mim.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Janelas da alma


Um olhar é o pecado do mundo.
O olhar do pai entristecido com o filho.
O olhar de um bebê sorridente.
O olhar da mãe orgulhosa.
Um olhar. Apenas um olhar é capaz de dizer com mil palavras não ditas o que milhões de letras seriam impossíveis de traduzir.
O olhar da culpa. Da inocência. Da raiva.
Da saudade.

É no olhar que você consegue, por um relâmpago do tempo, ver a alma. A alma desnuda, escancarada na sua frente.
É no olhar que somos incapazes de esconder quem somos e o que sentimos.
São os olhos que denunciam a alma morta, quando o coração já virou pedra ou quando já se enregelou.
São os olhos que apontam a mentira, o arrependimento, o desprezo e a paixão.
"Janelas da alma" dizem.
O olhar.
O olhar diz tudo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Papai do céu


Deus, cura-me de todo o repúdio. O repúdio que guardo dentro de mim.
Dai-me, Pai, mais humildade. Dai-me meus olhos mais tranquilos, mais meigos e mais infantis. Tira do meu rosto esse olhar preocupado, vigilante, assustado e atento. Enche o brilho dos meus olhos com aquele mesmo brilho que escorre dos meus lábios. Se cair alguma lágrima, que seja de cristal, bem chorada, bem sentida.
Faça recair sobre mim a pureza dos anjos. Não deixe, por favor, não deixe que eu caia nas mãos do menosprezo.
Construa-me com a mesma matéria que fez os meus pais e os pais deles. Abençoa-me também com o véu de sabedoria que deles vier. Dá-me a simplicidade e a grandeza dos meus avôs, a serenidade e a beleza das minhas avós, a sabedoria do meu pai e o amor da minha mãe. Meus irmãos, cuide deles e da família que eles irão construir. Guarda os que amo de sincero coração e proteja os de todo o mal.
Deus, se eu um dia fizer algum mal, deixe que o seu soberano castigo recaia somente sobre a minha cabeça e livrai os que me rodeiam.
No mais, meu amigo, não quero nada da vida. Dê-me a chuva, luz e esperança. Sempre esperança, porque tudo se vai, mas a esperança é o fogo que aquece o coração desolado e perdido. Nunca, mas nunca mesmo, deixe-me sozinho. Aqueça-me com teus braços, sua bondade e seu zelo. Faça-me sempre, e nunca por algum instante, sentir falta da sua presença.
E no fim quando for o meu momento e for hora de ir embora, quando você surgir caminhando naquela luz branca e me chamar com sua doce voz, leve-me para perto dos meus. Todos. Todos que já fizeram parte de minha vida. Quero rever cada um! Meus amigos, meus avós, meus cachorros, pais, irmãos e parentes. Quero também sentar-me ao seu lado, olhar pro seu rosto e podermos conversar, por longos e longos dias. Quero poder te abraçar, me envolver nos braços que protegem o mundo, nos braços que me envolveram quando comecei a existir e que me ampararam quando deixei minha existência.
Deus, te quero pra sempre do meu lado.
Te amo muito!