sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quantas saudades eu senti...



A eles...


... que não se deixam corromper.


... que não se deixam magoar.


... que não se deixam trair.


... que não se deixam abalar.



A eles, lindas criaturas que vieram ensinar ao homem uma lição que ele teima em não aprender. A eles e a todos os bichos, que desconhecem os pecados mundanos reservados apenas ao homem.



Olhos puros. Olhos sem maldade. Olhos sem pecado. Olhos sem vaidade.



Agora, eu, Luigi, vos confesso:


Sinto saudades dos meus dois únicos cães, companheiros e irmãos que tive em minha vida.


Sou capaz de chorar ao me lembrar de cada um deles.


Criaturas capazes de dar a própria vida pela minha. Que me amaram incondicionalmente, mesmo quando eu os deixava de lado por outra coisa. Que me recebiam com seu sorriso no olhar. Com seus saltos e giros felizes. Sempre prontos a me receber. Que poderiam ficar ao meu lado o resto de suas vidas, pois já lhes bastava viver perto de mim.


A vocês, Irã e Killer, eternos amigos. Bons amigos.


A você Irã, que foi mais como um cão-pai. Cresceu comigo e até ajudou meu pai a nos educar, eu e meus irmãos. A você, belo Fila Brasileiro, majestoso, de sangue puro e campeão. A você que eu tenho certeza que está em algum lugar. Que ainda vive!


A você Killer, meu pequenino irmão. Tão travesso! Você que eu tanto amei e não demonstrei. Eu por muitas vezes me esquecia de você. Fui para longe. Foi cruel o modo como se foi e eu me sinto mal por não ter aplacado seu sofrimento e sua dor. Esta será uma dor jamais curada em mim.


Não há vivalma nesse mundo como vocês.



Ah como eu sinto saudades dos seus olhares. Do seus cheiros. Do pêlo macio, do latido.



Eternamente em nossos corações.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O chamado selvagem


Não importa o que eu faça, onde eu chegue, como eu esteja. Antes que se chegue o fim eu terei percorrido muito chão, vivido muitas aventuras, contemplado muitas paisagens.

Influenciado por muitos, eu quero caminhar até o norte, no limiar da aventura, em deslumbrantes locais com perigos e belezas.

Parece-me que todo o meu objetivo de vida se encontra escondido na montanha mais obscura, esperando sempre que eu avance mais, sempre pro maior topo, sempre pro maior perigo, me chamando pra provação final. Uma última provação nunca imaginada e como resultado a satisfação plena e completa da vida. Então por ali mesmo eu relaxarei, erguerei meu belo e confortável chalé e por ali mesmo vou viver. Sairei na varanda e verei as montanhas e a lua, majestosa subindo aos céus, tímida. As montanhas serão gigantes guardando minha moradia. Subirá fumaça pela chaminé e então virão todos os animais comer de minha mão. Ursos, lobos, alces, esquilos e caribus.

Sempre haverá fogo na lareira, frio na soleira e neve na madeira. Estantes recheadas de livros de aventura, uma caneca de café quente e rede para leitura.

Meu espírito é das árvores, dos bichos.

Minha alma corre junto com os lobos.


Luigi Rajão

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O Interior do Alasca


Eu gostaria de adquirir a simplicidade, os sentimentos nativos e as virtudes da vida selvagem; despojar-me dos hábitos artificiais, preconceitos e imperfeições da civilização; (...) e encontrar, em meio à solidão e grandeza do Oeste selvagem, visões mais corretas da natureza humana e dos verdadeiros interesses do homem. A estação das neves seria a preferida, para que eu pudesse experimentar o prazer do sofrimento e a novidade do perigo.


Estwick Evans

terça-feira, 4 de maio de 2010

Saudades do meu irmão


"Saudades do meu irmão".

O pequeno garoto dizia para a mãe.

Uma lágrima escorria no rosto da mulher com o filho no colo. Não havia como responder a pequena criança que seu pequenino irmão se fora para sempre. Arrancado da vida de todos drasticamente, deixando uma buraco negro e profundo no coração de todos.

O garotinho ainda chorava a partida inexplicável do irmão. "E agora, com quem brincar? Quando ele vai voltar? Por quê ele não avisou que estava indo?"

"Pede pra Papai do céu cuidar do seu irmão, filho, pede.". Ele não entendia porque sua mãe falava aquilo, afinal, porque Papai do céu tinha que cuidar de alguém que tinha viajado por alguns dias?

Um dia, sua mãe chorando lhe disse: "Meu filho, seu irmão agora está com Papai do céu, olhando pra você, ele sempre vai te proteger, sempre estará ao seu lado. Agora ele é um anjo que está lá no céu.". Ele entendeu, era criança, mas a realidade se abateu sobre ele. Nunca mais veria o irmão que tanto amava. O irmão que sempre estava ao seu lado. O seu melhor amigo.

O quarto era mais escuro agora, mais frio, mais solitário. As roupas do irmão ainda estavam no guarda-roupa, os brinquedos na estante esperando que alguém os tocasse.

Ele nunca voltaria. Seu irmão se fora. Seu amigo.

"Saudades do meu irmão"- dizia ele todo dia.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Abandonado


Sentia ele que chegavam seus últimos momentos. Olhou ao redor com tristeza, pensando onde fora deixado, depois de tanto carinho doado, tanto esforço para com os seus. Era um triste fim a se chegar, justamente ele, homem honesto, bom pai, bom avô. Levantou-se com dificuldade, os ossos estalaram, avisando, cobrando o peso da idade. Nada mais funcionava como antes.

Certa noite, com a desculpa de que ficaria ali por alguns tempos até que voltassem de uma viagem, foi enganado e por ali ficou, anos e anos. Quase nunca o visitavam, quase nunca ligavam para saber como ele se encontrava. Não que não gostasse daquele local. Nada disso! Fizera muitos amigos por lá, ótimas pessoas. Mas ali era um lugar triste, com ar de abandono, onde residiam abandonados como ele.

Encaminhou-se para a cama, lentamente, desejando intensamente que aquele fosse seu último dia. Não culpava seus filhos, eles que vivessem a vida deles, mas ele não suportava mais a sua própria solidão na qual fora confinado. Sentiu que chegara sua hora e aceitou de bom grado o término. Tudo que nasce chega um dia ao fim. É o cliclo natural da vida, assim determinado, só resta aceitar.

Deitou lentamente, puxou as cobertas para si e ficou fitando a janela com seus olhos tristes. Olhos melancólicos. Piscou tristemente suportando a dor. Saberia que iria embora em instantes, pressentia isso. Lentamente as dores do corpo foram diminuindo, tudo se tornou sereno, calmo. Sentia-se como criança novamente. Não sentiu medo, apenas alívio, uma estranha felicidade. Um descanso.

Um véu negro e suave foi descendo sobre sua vista. Antes que tudo se apagasse o velinho respirou fundo e emitiu seu último dizer, como um grito do corpo que uniu as últimas forças para falar: Perdoai-me pelo que fiz, ao qual me condenou a esse triste fim. Perdoai-me.

Assim ele se foi, num repouso sereno e melancólico. Descansou.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Bruto e a Bailarina


Ele olhava a mulher pela janela. "Como é bela"-pensava ele.

Seus olhos assustadores fitavam a linda moça bailando. Muitos ao vê-lo ali, escondido, observando, julgariam-no um pisicopata. Porém, não sentia atração pela mulher, nem desejo algum, apenas amava vê-la bailando. Uma adoração.

Ah, ele a observava todas as noites. Ficava ali, detrás das cortinas encardidas, imerso em escuridão. Queria vê-la gigando para sempre, apenas para ele.

A forma como dançava, era tudo o que há de mais belo no mundo. Seu perfume invadindo o ar, seus cabelos num redemoinho de luzes e seus olhos, profundos e fechados, como num sono suave.

E assim era sua adoração, escondida, irrelevante. Sentia medo da reação que sua grotesca aparência iria causar. Sua forma gigantesca e bruta transmitia algo que não era.

Vivia assim, todas as noites a fitar, uma lágrima escorria no rosto. Não de tristeza, mas de adoração.

E se por uma noite não houvesse dança nem bailarina, terminava por quebrar o pouco que tinha e se castigava por não poder vê-la.

Tão louca paixão sentia aquele homem, paixão não pela mulher, mas pela forma como ela dançava. Delicada, graciosa, firme.

Todas as noites a fitar...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Fim





Ele acendeu um cigarro. A fumaça subiu densa numa profusão enjoativa de nicotina e café. A luz da lua adentrava pela janela de caixilhos e recaia sobre a forma disforme do homem pensativo. Seus olhos oblíquos se estreitaram diante dos trauseuntes que caminhava na rua abaixo. Chegara ao fim daquela vida ínfima e ordinária. Aquele invólucro deteriorado que chamava de "seu corpo" estava em frangalhos. A voz outrora limpa, não passava agora de um gorgolejar gutural, como pedregulho rolando sobre madeira. A boca se abria num esgar fantasmagórico, com dentes amarelados a mastigar o ranço viscoso. Respirar se tornara penoso e seus músculos se atrofiavam, tímidos, se retraindo sobre os ossos.
Não a uma forma bonita de se morrer. Nem menos dolorosa. Na linha tênue entre a vida e a morte o medo o consome. Medo e arrependimento. Não havia medo naquele homem.
Um brilho riscou o escuro seguido de um gorgolejo de sangue em borbolhas. Não há beleza na morte. O véu escuro vai descendo sobre o mundo e tudo deixa de existir. Os sentidos e sentimentos vão lhe escapando como água. Depois tudo não passa de um vagar no vazio infinito da mente.