segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O que restou


A vida me parece um monstro tão gigante e cá estou eu aos seus pés. Me sinto tão miudinho que parece que se eu quiser contra-atacar, bater, lutar ou ferir, dela não vou tirar sequer um arranhão.

Sabe quando estamos tristes, em momentos em que até os palhaços mais engraçados se tornam macabros e melancólicos? As cores se apagam e o mundo fica cinza e branco. Como eu desejo que meu passado fosse apenas sombras e pó, porque olhando agora, nada valeu a pena. Aprendi apenas a odiar o amor, saber que não vale a pena lutar por ele e por ninguém, apenas por si próprio.

Eu gostava mais quando corria gelo nas minhas veias. Quando meu coração era endurecido e meus dias eram mais sombrios.

Eu gostava mais quando era só comigo mesmo.

Ainda sou um velho náufrago mergulhado no oceano escuro, pairando nas sombras à espera de uma divina sereia de olhos vivos. Ouro e esmeralda encarnados numa só mulher.

Quero fazer do viver um presente, não um passado. Um passado que eu desejaria não ter vivido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Os anjos abrem os portões


Morreu. Esta é a sua empreitada por entre terras longíquas, por entre lugares assombrosos e fantásticos.

Por razões das quais eu não tomo conhecimento suicidou-lhe o corpo e a alma. Seus pertences carnais e espirituais foram tirados por si mesmo. Talvez por uma tristeza infinita, uma angústia de viver, um abandono, lágrimas que secaram sozinhas... não importa.

No momento em que fechou os olhos para essa vida, logo abriam-se outros. Sentiu o baque sobre as pernas, não sentiu dor. Abriu os olhos e se encontrou então em selva tenebrosa. Tudo era pedra, madeira morta, ferro, aço e lama. Nada era vivo. Nada que ali pisasse ou chorasse era vida. Almas suplicantes em vida agora suplicantes em morte.

Sentiu uma angústia rasgando-lhe o coração. Vacilou no passo e tombou na terra obscura. Viu próximo dali almas que rastejavam, homens e mulheres, jovens e velhos. Todos que não aprenderam a viver. Todos que infligiram ódio e medo. Ali eles repousavam.

Era o inferno. Não havia grilhões os prendendo a terra, nem fogo infinito queimando as pedras, nem chicote, nem um senhor do escuro. Havia apenas antivida. Ali, no inferno, todos os seus medos em vida sucumbiam seu coração. Todas as suas angústia corrompiam a sua alma. Um sofrimento inimaginável. Um sofrimento na alma, na mente, no coração. Era tempo para refletir.

Depois de um longo período de lamúria e dor, desciam dos céus anjos celestiais que irrompiam pelas nuvens negras. Desciam cheios de pesar por ver ali pessoas sofrendo. Quando tocavam o solo erradiavam luz e vida. As pessoas se aproximavam, mas nem todos poderiam ir ainda. Buscavam então a alma regenerada e tomavam-lhe nos braços. Uma farfalhada de suas asas gigantescas lhe tiravam do chão e lá iam eles com a alma renascida. Levavam-na para os céus, entre nuvens metálicas.

A alma então via, através das nuvens, o sol irradiando sua luz de bronze. Clarins soavam pelos céus junto com o farfalhar das imensas asas angelicais. Era a sua hora de descansar.

Era a sua hora.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O coração selvagem


Águias de bronze cruzam os céus metálicos. Fogem de tormentas longíquas que vêm apoderando-se do infinito azul. Os raios cortam a escuridão em relâmpagos fotográficos. Os trovões tremem o solo, como a poderosa voz de Deus. Então, gotas descem das nuvens, rasgando os céus como ínfimos cometas gelados. Caem livres, como bombas, explodindo sobre as criaturas que olham a tudo com faces assombradas.

Nesse momento a Terra respira aliviada. Sem fogo, sem fumaça, sem sangue. A chuva. Ela cai para limpar toda a sujeira. Caindo...caindo... um presente dos céus. Rebomboam no ar os tambores, ressoam os clarins da vida. Notas musicais navegam pelo escuro, tão natural como a própria natureza.

Nada é mais belo quanto a chuva.

É uma mensagem particular de Deus para seus mais belos súditos, aqueles seres viventes que pisam no solo e ali vivem. Não sangram a terra. Sabem todos que a grama verdejante é seu chão, o céu o seu abrigo e as árvores suas moradias. Esses são os anjos que desceram dos céus.

Não há poder, não há propriedade, não há código. Tudo é tão natural como a carne e o sangue. Viver e se deixar viver. Essa é a lei da Natureza.

As águias cruzam os céus, os leões caçam suas presas, os lobos uivam pela noite, serpentes e macacos convivem nas árvores e nada os impede de viver. O coração selvagem pulsa forte como a batida de um galope, quente, indomável e hostil. Um coração que retumba com vigor dentro da cavidade fria da Natureza. Tento segurá-lo com minhas mãos, que ávidas, buscam uma saída para todo o desespero e aprisionamento.

Ele pulsa num reboar profundo, de dentro da escuridão. Entre as árvores e as montanhas, como quem chama almas suplicantes de aventura.

Entregue-se ao coração selvagem, pois a vida clama por um pouco mais de liberdade.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sonhos de primavera


As coisas vêm e me atordoam como socos interruptíveis. Nunca param.


Quando eu caio, me levanto. Quando torno a cair, por ali fico. Daí me levanto novamente e fagulhas transpassam meu corpo como cacos de vidro quebrados em mil fragmentos.


Crio um escudo para isso e para aquilo, mesmo assim coisas novas vêm. Vêm de todos os lugares, tomando conta do espaço, da visão, dos sentindos. Só me resta me entregar aos meus ínfimos costusmes e gostos. Me entrego aos tragos de café, as leituras incassáveis, as esperas pelas tardes de chuva. Só me resta isso...

Fico caído na chuva, no solo rachado sob meus pés. Não quero levantar, quero ficar ali sentindo as gotas de água me atingirem, destruindo meu corpo como línguas de fogo frio. Eu vejo através de olhos atordoados que a vida me passa com horas rápidas, vejo a juventude se despedindo de meu corpo. Me tiraram o calor da vida sem pedir permissão. Tiraram-me o que não se deve tirar de alguém que se ama. Se é que se ama.

Espero, espero, espero... espero pelo dragão de luz e ouro pousando sobre meus ombros, arrebatando com suas asas a água e a lama que me cobrem o peito. Com suas poderosas patas me levando através dos céus de bronze, num pôr do sol infinito. Sinto que ele ultrapassa as montanhas e agora sobrevoa comigo sobre um lago gelado. Sinto sob minhas mãos o espelho de vidro passar velozmente, sinto o frescor do ar que precede a chuva. Sinto que o sol sorri para mim, sorri timidamente entre as nuvens, encolhido no horizonte. Ele me promete te tirar da minha mente, promete-me que vai expulsar meus demônios e meus medos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Para alguém que amo.


As vezes eu não resisto e faço desse blog mais pessoal. Sim, o blog é meu, teoricamente é pessoal, mas eu não quero que seja. Não quero que seja um diário, quero falar de coisas que tenham a ver comigo e meus sonhos, mas de outra forma, sem me envolver. Porém, as vezes a minha vida e minha falta de ideias pedem que eu abra um espaço para mim mesmo. ahahahaha

Bom, hoje eu vou falar um pouco de uma pessoa que amo. Na verdade eu amo poucas pessoas e dificilmente amo alguém. Mas acho que quando amo, admiro muito a pessoa e por ela vou até o inferno. Sim, é meio clichê falar isso, porém a verdade é essa. Algo tão difícil de acontecer, mas quando acontece, vem com uma intensidade tal que eu saio fora de mim.

A pessoa que eu amo e que vou falar hoje é alguém que eu fico admirando. Na verdade, essa pessoa não tem algo extraordinário e pra ser sincero, falta muita coisa nela ainda. Muita coisa! Não pense que por eu dizer que amo essa "tal pessoa" quer dizer que ela é uma pessoa admirável, muito pelo contrário. Mas eu amo mesmo assim.

A pessoa de quem vos falo, caro leitor, sou eu mesmo. Sim! Eu mesmo! Engraçado isso, não? Quantos nesse mundo amam a si próprio? Pois eu me amo! Amo o meu jeito de imaginar as coisas, o mundo, as pessoas. Amo viajar dentro de mim mesmo e quando descubro coisas novas sobre mim fico realmente empolgado.

Sabe o que mais amo e admiro em mim? A minha capacidade de passar horas me deliciando com alguma teoria, ideia, discurso, teorema... É o passatempo que eu mais me dedico. Eu tenho outras qualidades, mas não sou aquele cara que seja firme numa coisa só. Acho que sou feliz comigo mesmo, é claro que eu queria que coisas em mim mudassem, mas me amo do jeito que estou. Amo meu corpo, meu rosto, meus gostos e minhas vontades. Meus objetivos, apesar de serem incertos, estão se formando. Nem sei no que dará, mas quando eu me decidir com certeza, eu lutarei por eles até o fim.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A arte de caminhar


Na mesa de minha vida há um livro velho e surrado pelo uso. Folhas velhas e manchadas se espalham por toda a superfície com escritos de um louco. A pena repousa no tinteiro.

Há também mapas de lugares longíquos. Mapas de vales, montanhas, charnecas e rios que cruzam planícies geladas em lugares remotos. Ao lado repousa uma mochila de carga, gasta, suja e cheia de histórias para contar. A mochila de um viajante que caminha sozinho, nas aventuras dos lugares hostis, compartilhando a noite com feras famintas, vigiado por olhos que espreitam na escuridão, pelo sol da manhã que nasce nas montanhas. Um viajante que inspira o ar puro do selvagem e mantém a sua rota sempre para o norte.

Abaixo da mesa, há as botas de caminhada, sujas de lama. Na soleira a bengala de caminhada, a espera de mais uma desventura.

O viajante não para. O viajante clama por aventuras. O viajante abre a janela, contempla as montanhas e as florestas verdejantes e se sente tentado a adentrá-las e não mais voltar. A mergulhar no infinito do desconhecido, do desolado, do perigoso e do hostil. E mesmo em ambiente tão pertubador, é lá que ele se sente vivo. É lá onde ele sente que está em casa.

Dorme ao relento, sobre a pedra. Mergulha nas águas geladas do rio revolto, respira poeira dos desertos, deita-se sobre a relva das campinas com orvalho. Encolhe-se sob o gelo da nevasca e galopa junto com os corcéis selvagens.

Assim é o viajante.


" Deveríamos talvez, mesmo na mais curta caminhada, avançar com o espírito de eterna aventura, para jamais voltar- disposto a mandar de volta os nossos corações embalsamados como relíquias para nossos desolados reinos."- Henry David Thoreau

sábado, 18 de setembro de 2010

Ode a Medusa




Ambâr luminoso

Imerso em escuridão

Silvo tenebroso

de congelar o coração


Mil serpentes na cabeça

Espera que ela venha

Chilriando e gritando

até que o enlouqueça


Mulher ardilosa

Víbora dantesca

com sua face luminosa

os corações endureça


Por fim, em selva tenebrosa

entre seres estáticos

rasteja a Medusa

tragando homens vivos

e cuspindo homens frios

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Selvagem


Marque-me como um soldado de guerra. Quem sabe isso vai despertar em mim o fulgor da batalha.

Espanque-me para que eu sinta fúria e sede de vitória.

Humilha-me, para que eu possa provar meu valor.

Dá-me então armas e espere cólera e sangue.

Todas irão tremer diante dos tambores de guerra.

Eu estarei lá, na primeira falange, gritando, zombando, alucinado com o cheiro da batalha e o medo exalado pelos homens.

Como um cão, quero passar por privações tais, que assim consiga voltar aos meus instintos mais naturais e enfim, adentrar na Natureza Selvagem.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Medo



Texto escrito por Viviane C., congratulações a ela. Um belo texto!




Caminho sorrindo...

Mas uma parte de mim chora. Grita!

Imploro socorro...

Angústia, dor, sofrimento...

O porque eu não sei.

Para todos eu nunca estive tão ótima,

mas me sinto perdida.

Não consigo mais ver

o que as pessoas sentem

e nisso o desespero.

A cada dia, uma nova decepção.

Então assim

Começo a descobrir que nem tudo

era tão perfeito como imaginava.

Mentiras. Desafeto.

Não enxergam o que preciso.

Não querem enxergar.

E mesmo assim,

não deixo de dizer "bom dia",

não durmo sem dizer "boa noite".

Então continuo sonhando,

até amanhecer,

mas sei que nada sou.

Apenas uma pessoa que passa.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Coisas que mudaram a minha vida...


Poucas coisas mudaram realmente a minha vida. Que eu me lembre foram pouquíssimas coisas.

Quando eu tinha meus onze anos de idade aconteceu algo tão simples, porém tão dinâmico e inovador em minha vida que tudo se modificou radicalmente devido aquele único instante.

Era um começo de ano na escola, encontrei meu melhor amigo, sentávamos em lados opostos na sala. Antes que a aula começasse, ele me chamou e devagarinho retirou da mochila um livro. Um livro que mudaria a minha vida radicalmente. Que abriria as portas da minha mente.

De dentro da mochila saiu um livro, na capa, um garoto sobre uma vassoura. "A Pedra Filosofal".

Emprestei o livro do meu amigo e o devorei. Logo após fui acompanhando e comprando toda a série. Para muitos, uma estória infantil, mas eu sei o quanto representa para mim. Eu não leria grandes autores hoje se não fosse a sede da leitura que Harry Potter despertou em mim.

Outra coisa que recordo que mudou a minha vida.

Num dia qualquer, sem nada a fazer, digito no youtube "trailer", surgi então uma lista de vídeos com vários filmes. Dentre eles surgiu um filme que trouxe talvez a minha vontade de voar e me aventurar pelo mundo. Era uma história real sobre um homem, Alex Supertramp (acho que ele gostaria de ser chamado assim), concidentemente o meu primeiro nome. Alex, deriva de Alexander, protetor da raça humana. Foi a história de Alex Supertramp, o Cristopher Maccandless que me fez ver um outro mundo. "Na Natureza Selvagem" me fez ver um mundo de sonhos que eu tenho que viver. Uma sede de aventura. Uma vontade imensa de alcançar meus próprios sonhos, conhecer culturas e lugares. Saber respeitar as diferenças e admirá-las de alguma forma. Aprendi a ser uma pessoa melhor e sei que agora o que erradia em mim é o melhor que eu posso oferecer à todos!

Houveram sim outras coisas que mudaram a minha vida, pessoas e ocasiões, mas aí, bom... é um segredo que levo comigo.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aprendendo...


Será que eu posso tocar o silêncio?
Será que eu posso alcançar o vazio?
Talvez até, eu possa encontrar enfim a minha paz interior e possa descansar da forma que sempre quis.
Escrevo isso assim como se toca um piano.
Eu prometo defendê-los, os que me amam. Eu prometo defender todos aqueles que têm por mim um sentimento de apreço. Defendê-los feito um leão de juba esvoaçante, pelagem dourada e olhos de fúria.
Eu vos prometo.
Serei um titânico ao gritar do alto da montanha com uma fúria amedrontadora. Vibrem os grilhões que me prendem a terra, pois o chão irá tremer. Prendam as estacas mais ao fundo porque agora com mais relutância eu vou querer sair.
Eu não sei o que é amar, mas sei o que é querer o bastante para tomá-los para mim. Desculpem-me se não alimento o amor ou se apenas não sei amar. É simplesmente porque não sei como fazê-lo realmente. Sei do que sei, sei do que sinto. Algo puro como água.
Sinta-se afortunado por me ter ao seu lado, pois sempre irei querê-lo ao meu. Vou sorrir cada vez que o vir chegar e sentirei uma explosão gostosa de felicidade quando pensar em você.
Eu erro sim, o ser humano é falho. Não existe uma real justificativa para errar. Erramos porque erramos e pronto. Mas a diferença não está no que você fez e sim em como você será depois. Isso é que realmente importa.

“Tamanhas atribulações que às vezes viro lobisomem e estraçalhado de desejos divago como os cães danados.”- Manuel Bandeira

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Há vampiros e vampiros


Existe a escória que rasteja nos becos escuros, sedentos de sangue. Parecem zumbis sanguinários com seus olhos vivos sobre a carne morta. A boca aberta num escárnio, os dentes imundos de sangue viscoso. Percorrem os telhados do subúrbio como raposas imundas, vão eles com largas passadas silenciosas. Refugiam-se nos velhos galpões e quando alguém passa, seja velho ou novo, tratam logo de atacar com sua fome voraz. A vítima expele sangue e grita, quando vê, há vários a sua volta lhe puxando a carne e bebendo-lhe o sangue.

A escória está onde deve estar. Cirque et pain.

O que dizer dos fidalgos vampirescos?

Vampiros luxuosos que residem as mansões nas colinas. Sua pele é dura como mármore e alva como tal, seus olhos de gelo se perdem na sua face fria, a boca se abre num sorriso presunçoso revelando suas presas de lobo. Trajam caros gibões e batas de fino linho.

Vivem juntos, celebrando a noite. Luxo, luxúria e lira.

Não caçam, iludem.

Atraem suas vítimas para sua toca, quando matam, fazem-no de modo ágil, limpo e fatal.

A adrenalina azeda o néctar do sangue.

Uma vítima por vampiro. Os rituais de degustação sanguínea... perdoem-me, mas eu os oculto.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ao homem que dorme na rua.


Toma esta moeda, meu homem

você que dorme ao relento

no frio e no vento

dor maior eu não tento.



Toma esta moeda, mendigo

o meu pesar vai consigo

na rua onde mora o perigo.



Dou-lhe uma moeda

não lhe dou comida

para não aumentar mais um dia

viver nessa tua agonia.



Beba tua cachaça

aplacar a dor ela faça

e esquecer essa tua desgraça.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Pare o mundo, eu quero descer!


Se agora me dessem apenas um desejo, eu diria: pare o tempo.

As folhas que estavam caindo, parem em pleno ar.

Quero que o vento pare de soprar, o barulho pare de soar e os olhos parem de olhar. Eu quero o mundo só para mim, pelo menos por um momento eu quero ir e vir. Pensar.

As palavras que você estava para dizer, vão sair de sua boca e se perder no silencioso infinito. Todos serão como estátuas numa maquete em tamanho real, feito um filme de ficção científica.

Quero o tempo parado somente para mim. Apenas eu me movendo no vazio da estagnação. Seja quanto tempo for, quero tempo para sair caminhando sem rumo e sem dar satisfação a ninguém. Quero tempo para me sentar numa rocha qualquer e pensar nos porquês e nas razões da vida. Por um dado momento quero ser apenas eu, sozinho de tudo e de todos. Sem sentir o vento, nem o som, nem frio, nem calor. Ficar ali e somente ouvir o barulho ensurdecedor do silêncio.

Porém, o tempo não para. Faça o que tiver que fazer agora, sem medo do que vai acontecer. Diga o que tem que dizer sem medo. Talvez o tempo até pare pra você, mas talvez não seja de uma forma muito bonita. Talvez seja amanhã, depois ou outro dia. Você fica parado diante da vida, mas a vida não fica parada diante de você.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uma nova era...


Hoje eu descobri que meu coração ainda bate. Há muito tempo eu colocava minha mão sobre o peito e sentia um vazio silencioso e parado.

O senti novamente bombeando velozmente aqui dentro. Aprendi que o que o faz acelerar é uma prazerosa adrenalina que corre em minhas veias. Um sensação viciante e deliciosa.

Loucura minha dizer que meu coração parou de bater, se outrora batia descompassado como o de um cavalo corredor. Mas essa é minha verdade, eu me sentia um vampiro cada vez que colocava as mãos sobre o peito e apenas sentia a pele inalterada, sem movimento.

Não sei como nem porque aconteceu, mas me viciei na sensação de ter a adrenalina correndo minhas veias como fogo de rastro. Meu coração bombeou novamente como os pistões de um carro de corrida e eu senti uma prazerosa sensação de ser o melhor e mais potente do momento.

Me disseram uma vez que meu coração batia por dois, no momento eu senti isso, mas foi no momento. Com o tempo ele se cansou de bater, ficou fraco e frio. Acho até que endureceu lá dentro numa pedra de gelo, como se dissesse "Eu tenho que descansar!".

Queira Deus que eu esteja certo, mas acho que esse gelo derreteu e ele voltou a ativa. Pronto para aventuras mais radicais, esperando que eu me lance ao mundo sem medo e pronto para enfrentar o que está por vir.

Avante!

Eu sou o Luigi, não um novo, não o velho, um diferente. Pronto a mostrar ao mundo o que eu tenho de melhor sem querer de volta do mundo o melhor que ele tem a me dar. Eu quero, eu vou buscar e pouco me importa se isso te incomoda. Se quer vir comigo, eu lhe estendo a mão, se não quer, eu lhe dou um adeus.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O filho amado a casa torna...


QUE FIQUE CLARO: A história a seguir não é de minha autoria. Apenas vou reescrevê-la com minhas palavras. O nome do autor da ideia me é desconhecido, então todas as congratulações sejam referidas para o mesmo.



Oklahoma, 1945.

Toca o telefone na residência dos Rockwood. Uma senhora deixa as panelas no fogo e corre para atender.

- Residência dos Rockwood- anuncia ela.

- Alô? Mãe?- surgi a voz de um jovem.

- Oliver?- ela solta uma exclamação- oh meu Deus, George, venha! Nosso Oliver está no telefone! Ah meu Deus, Oliver, como você está? Está bem? Quando vai voltar?

- Hey mãe, calma!

- Ai meu filho, eu rezei tanto para essa guerra acabar. Tem certeza de que está bem?

- Mãe, calma, eu estou bem! Eu vou voltar em breve. Já fiz meu trabalho por aqui, o coronel Sr. Hanks me dispensou.

- Ai que bom- suspirou ela- seu pai está aqui ao meu lado sorrindo e dizendo que te ama. Que sente saudades. Nós te amamos meu filho.

- Eu também mamãe, amo muito vocês- disse ele- hum, mãe, posso pedir algo a vocês?

- Diga meu filho.

- Bom, eu tenho um amigo de infantaria que se feriu na batalha. Pisou numa mina. Perdeu a mão e a perna esquerda. Ele morava com a tia no Colorado, mas ela morreu durante a guerra, então ele ficou sem lugar para onde ir até que o advogado resolva tudo. Será que ele não pode passar um tempo conosco?

O telefone fica mudo por uns instantes. Logo vem a voz da mãe, séria.

- Olha meu filho, sentimos muito pelo seu amigo. Porém, não será possível que ele venha para cá, não poderemos acolhê-lo, necessitará de cuidados especiais e atrapalhará os planos para o nosso futuro.

- Tudo bem, mamãe.



Dez dias depois chega a residência dos Rockwood, na carroceria de um gipe militar, um caixão de madeira recoberto com uma bandeira dos Estados Unidos da América. O cabo entrega nas mãos da Sra. Rockwood uma certidão de óbito alegando ser ali seu filho e dá suas condolências. Naqueles documentos, constata-se morte por suicídio evidente. Faltavam-lhe exatamente a mão e perna esquerda, perdidos num campo minado.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gatos são como pessoas...


Não subi dois lances de escada quando da porta ouvi a velha grasnar.

- Berta! Senhorita Berta!

Me virei sem paciência para a porta do 103.

- Sim Dona Gabirosca?

Ela me olhou com aqueles olhos de velha. Olhos cansados de fumo.

- Voltarinho me desacatou- ponto.

- Como Voltarinho te desacatou? Ele é apenas...

- Não importa, ele me desacatou. Faz rudez de todas as minhas ternurinhas.

Olhei-a incrédula.

- Tudo bem Dona Gabirosca, vou repreende-lo.- garanti.

- É bom que o faço. Pois bem, pode ir- concedeu.

Mulher intratável! Virei-me como quem não quer nada mais na vida e subia a escada. Abri a porta de meu apartamento e lá estava Voltarinho, deitado no tapete como se a vida houvesse passado por ali e não lhe oferecera alegoria nenhuma de prazer. Seus olhos azuis me fitaram por um instante, me analisando, sondando algo novo em mim.
Coloquei as sacolas e a bolsa sobre a bancada. Voltarinho se levantou e veio ter com minhas pernas.

- Sai já, seu miseravelzinho.

Ele me olhou ofendido e sem dizer nada, voltou rebolante para o tapete. Caiu como quem cai em guerra, pernas estendidas, corpo alongado. Sem honra nem glória.

Tornei-me a virar, ajoelhei-me diante de seu corpinho e afaguei-lhe as orelhas. Seu corpanzil tremeu ao meu toque, ele olhou para minha mão satisfeito.

Num salto, pulou para o meu colo e ronronou a minha orelha.

Voltarinho miou para mim, como quem diz "ela mereceu".

- Seu danadinho, que história é essa de não ser covalente com agrados? Dona Gabirosca lhe ofereceu um naco de queijo, foi?

Ele me olhou incrédulo, pulou de meu colo, caiu no tapete e voltou a roncar.

Justamente por isso, Voltarinho era meu gato preferido!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Poema da arrogância


O que me é pouco

aos pobres é muito

mesmo os ricos

benfazejos e promíscuos

alimentam-se com escória.


Perdeu-se na história

o gosto pelo mais fino

o que é esdruxulo

no presente,

torna-se no futuro um luxo.


Meus poemas são assim

sem padrão

nem perdão

São beleza aos teus olhos

É fácil escrever

belas palavras

Não é fácil escrever

belos poemas

Mortais escrevem

com a pena

Poeta escrevem

com a alma.

Paixões


O que eu poderia dizer do que sinto às sextas-feiras?

É ótima a sensação de chegar em casa num dia frio e nublado, numa tarde deliciosa de inverno.

Talvez você não entenda a simples e extraordinária felicidade de tomar uma caneca de café quentinho e poder se sentir a vontade, seja onde for, para ler um livro. Um ótimo livro.

Lá fora o silêncio é natural, como se só houvesse você no mundo. Nada assustador, apenas natural. Sem carros e nem música barata. Ouve-se a lírica música dos pássaros que cantam sobre as frondosas árvores do meu bairro. Um bairro tranquilo de ruas escuras sob a sombra dos arvoredos.

Talvez você me tome como um senhorio, pois bem sei de todas as minhas vontades. Na verdade, melhor eu seria um fidalgo. Cartola na cabeça, mão na bengala, terno de fina costura, monóculo, luvas de couro e bigode recurvo. Rosto sisudo, de olhar oblíquo e avaliador. Queixo largo e face talhada.

Declaro-vos as minhas paixões: o café, as sextas-feiras e os livros.



quarta-feira, 23 de junho de 2010

No meu mundo...


Por favor, não tirem de mim os meus sonhos. Deixe-me conhecer por mim mesmo os perigos e males do mundo. Deixe-me ir percorrer os mares e as montanhas. Eu preciso disso para ser feliz.

Quem sabe quando eu estiver bem longe, num lugar esquecido, numa cidadezinha fria e montanhosa eu lhe mande um cartão de lembrança. Não que eu tenha os esquecido, só que eu apenas vou viver a vida que quero do modo que quero.

Se bem quer saber, não me importo com esse sonhos que todos tentam alcançar. Meus sonhos e meus desejos são mais profundos, mais complexos e inatingíveis. A busca pelo conhecimento profundo e expansivo. Entender de tudo um pouco.

Já me é tudo sem graça, como se eu estivesse através de um vidro vendo a vida girar ali fora. As pessoas aos meus olhos são bestas ignorantes que correm pelas ruas a babar e escandalear asneiras espalhafatosas. No estado em que estou, tornei-me um crítico arrogante.

As roupas alheias me são ridículas, as atitudes das pessoas me mostram no que essa população asquerosa se tornou e me corrói saber que sentimentos impuros uns alimentam pelos outros.

Adeus, vou viver na minha terra mágica e fantasiosa, que mesmo que se passe dentro da minha cabeça, tudo será como eu quero. As pessoas serão verdadeiras umas com as outras. Nesta terra a mentira não perdurará. A cultura vai reinar entre as pessoas e as melodias virão do céus. Cada um poderá pensar por si só, sem ter que rastejar pelas ruas como acéfalos. Líderes serão Líderes. Assim mesmo, com letra maiúscula e com seu real significado: liderar a opinião da maioria sem ferir a democracia.

Porém, isso se passa só aqui, dentro de mim. Quem sabe algum dia eu encontre mais pessoas que queiram compartilhar comigo esse mundo fantástico e extraordinário!


Luigi Rajão

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pôr do sol


Eu não sei explicar, mas eu vi uma parte do meu dia como num filme.

O sol alaranjado do fim de tarde incindia sobre meu rosto. Eu me sentia bem, me sentia a vontade, belo e simpático.

Ela também estava linda. Tudo se passava como num filme ou num clipe. Eu via através dos cabelos dela o sol que ia se pondo. Os skatistas davam piruetas mal sucedidas nas rampas da praça.

Sim, parecia um daqueles filmes românticos de dois adolescentes num fim de tarde numa praça. Mas havia um porém, não era namoro, era uma despedida de namoro.

Não houve choros, houve risos. Não houve medo, houve coragem. Não houve pessimismo, houve sonhos.

Eu então sorri, sorri como só agora eu me permitia sorrir, livre de uma angústia, de uma tristeza. Me senti feliz por nós, por me sentir aliviado, por meu coração parar de pingar.

Conversamos sobre coisas que até então eram indiscutíveis entre nós.

Hoje eu estou extremamente feliz por ter vivido o que Vivi e ainda mais feliz que ainda te tenho aqui perto de mim.

Eu te amo, te adoro ou como queira chamar esse sentimento forte.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ele está em vós


Existem vários motivos para Deus não existir. O homem diante de tanta crueldade e tanta maldade, não é culpado por não acreditar.

Mas eu prefiro acreditar.

Eu prefiro acreditar que nos momentos mais difíceis, mais obscuros, mais sozinhos, vai ter alguém do meu lado. Independente do que eu fizer, como eu estiver ou onde eu estiver, eu quero acreditar que tem alguém ali do meu lado olhando por mim.

Saber que quando todos forem embora, quando todos virarem as costas para minha vida e eu me sentir sozinho, ele estará sentado bem ao meu lado, com um sorriso encorajador. Quando eu precisar dele desesperadamente eu vou colocar a mão no peito e vou chamá-lo com todas as minhas forças. Então ele virá, virá rápido para proteger seu filho amado.

Ele nos ama sem pedir nada de volta, sem se importar que nós não nos lembremos dele e que até esqueçamos que ele existe. Ele o ama mesmo depois de todos os seus erros. É o amor mais puro que se pode sentir, um amor que não se importa com nada, apenas ama.

Preste atenção ao seu redor. Sinta cada detalhe que passa por sua vida. Sinta o vento, o sol, o frio, a felicidade... e até a tristeza, que embora seja vista como algo ruim, tem o seu lado bom. Ele está em tudo. Ele é cada grão, cada célula, cada folha, cada molécula. Ele é o mundo e tudo o que há nele. Inclusive você.

Você é ele e ele é você.

Não me deixe só...


Esses dias me perguntei: vale a pena amar tanto pra depois sofrer da mesma forma?

Amar é como ganhar um cachorro: você o ama muito, mas quando ele se vai, você sofre arduamente e então pensa que antes não tivesse amado tanto, para que não sofresse.

Quando sofremos por amor sempre nos vem a cabeça essa ideia: "se nada disso houvesse acontecido, se eu pudesse voltar no passado e ter mudado as coisas..."

Mas a vida não é assim. A vida não é má, nem boa, ela nem sequer é justa, ela simplesmente acontece independente de quando estamos, quem somos e aonde estamos.

Se me perguntassem se eu mudaria certas coisas no meu passado, eu ficaria na dúvida. Talvez tenha valido a pena ter vivido tudo o que vivi. Talvez teria sido melhor se eu não tivesse entrado nessa.

Por um tempo o nosso coração fica pingando... pingando... pingando. Nós queremos ser vistos, sermos acariciados, sermos protegidos. Queremos palavras de conforto. Mas elas não vem, nem de quem você mais espera. A vida é assim, ela não perdoa sua fraqueza e aí sim ela bate com mais força.

Chega o momento em que você se vê mais recuperado, então, como numa brincadeira da vida, aparece algo que te decepciona mais ainda e te lança mais para o fundo. Você cai lá, num chão molhado, tudo escuro e olha para cima. A pessoa que você amou ri ao te ver ali, se vira e vai embora. Você então fecha os olhos na mais profunda tristeza e pede para fugir dali. De tudo aquilo. Até de si mesmo.

O coração se aperta então, até não poder mais. Você sente que aquilo reflete em você. As coisas perdem a cor, a música perde a melodia, o frio deixa de ser frio e o calor deixa de ser calor. As manhãs são tediantes, as tardes ainda mais e as noites são um terror.

Você reza para que o telefone toque, reza para ler uma palavra sequer de alguém dizendo que se lembra de você.

Então você pensa "a vida é uma merda.".

terça-feira, 15 de junho de 2010

A morte de Heitor


Os portões de Tróia estalaram e giraram nas dobradiças. De dentro da fortificação saiu Heitor, senhor dos cavalos, Príncipe de Tróia e general da cavalaria. Envergava uma bela armadura prateada trabalhada com pedras preciosas. O elmo era ornado com uma bela crina branca de cavalo.

Fora, postado como um touro, estava Aquiles, o maior guerreiro da Grécia. Seus olhos perfuraram Heitor com uma fúria voraz. Sua armadura prateada era divina, fundida pelas mãos de Hefesto, filho de Zeus. Fios de ouro percorriam a prata fazendo desenhos mitológicos e no peitoral o desenho representava seus dois cavalos divinos, Xanto e Bálio.

- Aquiles, antes que entremos em combate, quero que saiba que pensei ser você no calor da batalha. Seu primo lutava e se portava como você. Dei-lhe uma morte digna.

- Não me importa. A sua morte não será digna. Hoje, sobre esse pó e sob este céu, sua família e toda a Tróia o verá tombar sobre minha espada. Sem honra, sem glória. Vou mandá-lo para o mundo de Hades. Vagarás entre os mortos sem olhos e sem língua. Não haverá clemência na sua morte. Vou arrastá-lo por toda a planície até o meu acampamento e lá, darei modo no teu corpo deixando que cada soldado lhe espete com a lança e se vinguem da morte que infligiu entre tantos dos meus.

- Aquiles, peço-te apenas que entregue o meu corpo a minha família de modo que possam arranjar-me um funeral digno.

- Não, se é isso que lhe aflige medo, isso é o que lhe farei. Enquanto bebermos e jogarmos em honra de Pátroclo, teu corpo será dado aos cães e aos corvos!

Dizendo isso, Aquiles, como num raio, imprimiu a lança contra o corpo de Heitor, visando-lhe o peito. Heitor, num reflexo fantástico, levantou o escudo. A lança atingiu a defesa e se estilhaçou em mil fragmentos. Heitor sentiu o impacto do projétil e seu braço reclamou de dor.

Agora foi Heitor que arremessou a lança contra Aquiles. Imprimiu no braço livre toda sua força e rogou a Apolo que ela encontrasse seu fim no coração do guerreiro inimigo. Mas Aquiles com um rápido movimento da espada desviou o projétil, que foi cair longe dali, espetada no chão.

Aquiles então correu de encontro a Heitor, sem escudo. Heitor prostou os pés no chão para receber o ataque, levantou o escudo acima da cabeça bem na hora que Aquiles vinha a toda com sua espada.

Quem via do alto da muralha, sabia que aquele embate jamais seria visto. Dois dos maiores heróis da época se confrontando como tigre e leão. Andrômaca, mulher de Heitor chorava copiosamente com seu filho, o pequeno Aleto no colo. Príamo e sua mulher, pais de Heitor, junto com seus outro filhos, assistiam aquilo com aflição.

Passaram-se horas até que Heitor começasse a vacilar. Seu vigor já não era o mesmo, suava muito e já não mais atacava, apenas defendia as envestidas de Aquiles. De outro modo, Aquiles investia como um leão, sua fúria era amedrontadora. Rodeava o inimigo como um lobo sedento de sangue.

Quis então o destino que Heitor encontrasse um infeliz fim. Enquanto recuava, tropeçou numa pedra ali no chão, seus braço vacilou e seu escudo soltou-se de sua mão. Tentou ainda se defender com a espada. Tarde demais, Aquiles vinha a toda. Heitor sentiu a lâmina fria entrando-lhe pelo coração e na mesma hora sentiu um frio percorrer a espinha. O véu negro da morte começou a cair diante de seus olhos e o mundo foi se apagando. Não viu relances de sua vida e nem o rosto de ninguém amava. Cuspiu sangue e tombou no pó da planície, sob a vista de todos que assistiam. Caminharia agora entre os mortos, na margem do rio Styx, morada do Deus Hades.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O caminho lá de casa


No caminho lá de casa, há folhas secas ao chão. As frondosas e sombrias árvores ladeiam a estradinha. A estrada termina numa porteira vermelha muito velha. Abra-a e entre. Suba a colina de grama verdejante. Minha casa fica lá no topo.


Está vendo esse belo chalé de madeira? Está é minha casa. Aliás, este de jeans, suéter vermelho e botas de caminhada com duas canecas de chocolate quente sou eu.


Estes dois cães da raça Golden Retriever são meus, o macho vermelho é o Trevor e a fêmea amarela é a Lucy. Trate-os bem, são meus filhos. Eles e os outros que perambulam por aí.


Entre na minha casa. Aqui dentro está aquecido.


Como pode ver, aqui dentro não é muito grande, mas é belo. Veja aqui todos os meus livros preferidos. E ali, bem ali em cima da lareira, são objetos indígenas que trouxe de uma incursão minha pelas aldeias da região. Há ali no canto minha escrivaninha, "portal dos sonhos" como chamo o lugar onde escrevo meus livros. Estas fotos são das montanhas que já percorri, este são cães e cavalos meus que já morreram. Veja só! Este era um lobo cinza que percorria as redondezas daqui em busca de comida, acredita que ele comia na minha mão?


Bom, quero que conheça um lugar especial. Venha.


Andamos e chegamos então a um estábulo distante da casa, eu abro a porta e entramos pelo corredor. Logo meus cavalos percebem a nossa presença e começam a patear o chão. Eu abro a janela de cada baia e afago cada um. Com um sorriso no olhar e um brilho nos olhos. Chamo por cada um, para que ouçam a minha voz. Apolo, Treva, Cronos, Arold e Merle.


São todos belos cavalos.


Venha visitante, guardei o mais impressionante agora para o final. Voltemos ao meu chalé.


Quando chegamos de volta a casa, levo-o para os fundos. Atrás dessa porta há uma grande varanda onde tomo café todas as manhãs, leio balançando na rede ou simplesmente contemplo a paisagem...

Veja. Não é de tirar o fôlego?

Veja estas imensas montanhas que fazem sombra sobre esse lindo e grande lago. Veja quão belo são os altos pinheiros que recobrem o sopé desses belos montes. Pode sentir esse vento fresco?

Eu sou o homem com o mais belo quintal do mundo!

Nas frescas manhãs de sábado levo os cães para nadar, tacar pedrinhas na água ou simplesmente caminhar entre as árvores. Vez ou outra eu vejo um urso tentando pegar um peixe bem ali naquela margem. A noite, a lua aparece bem ali entre as montanhas, é um espetáculo que apenas eu presencio. Deus reservou esta sorte a apenas um homem: a mim.

Não há nada melhor do que preparar uma caneca de chocolate quente, sentar-me aqui nesta varanda, um bom livro no colo e ficar aqui sentado em silêncio, o vento batendo. Um silêncio musical.

Deus reservou esta sorte apenas a mim.

Esse é o meu lugar



Eu posso ver tudo como num filme agora. Eu me vejo girando sobre folhas secas, sentado à sombra de grandes pinheiros, lendo livros na encosta de belas montanhas, sentindo o vento enquanto jogo pedrinhas num lago. Eu não preciso de ninguém. Não quero conversar, não quero dar satisfação a ninguém, não quero ter deveres para com ninguém além de mim. Basta-me os meus livros, minhas árvores, meus bichos, minha lua, minha noite, minhas montanhas.
Eu descobri que posso viver dentro de mim da forma mais feliz que desejo. Eu vejo e sinto tudo o que quero.
Eu não sei se você pode ver ou se pode sentir. Consegue ouvir esse leve barulho do vento passando pelas árvores? Consegue sentir a paz que silencia aqui entre as montanhas? Consegue se surpreender com as águas desse lago gélido que está preso aqui entre esses montes?
Eu não sou infeliz, pelo contrário, sou extremamente feliz. Eu sorrio quando vejo os animais virem mansamente se unir a mim pela manhã. Todos ficam em harmonia. Vem o cervo, vem o pássaro, vem o castor, vem a raposa, o lobo, o caribu e também o urso. Todos vem me saudar pela manhã. Me olham carinhosamente, encostam seu focinho na minha mão para que eu os acaricie. Esse é o meu lugar.
Esse é o meu lugar!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dê asas a sua imaginação


Sabe-se que o fulgor dos teus olhos fazem de mim um ser vazio. Encarno o poeta e torno-me um domável bichano.

Dizem que me perdi neste caminho. As areias levaram com o tempo meus deveres, minhas ideias e eu mesmo.

Subiria as titânicas oros que se erguem acima de nossos olhos, atravessando as nuvens com seus picos salpicados de neve.

Voaria a barlavento, rodando os mares de águas revoltosas. Contornaria essa esfera sobre a qual pisamos e chamamos de morada.

Minha loucura não tem limites dentro do papel e sinto-me confortável por não poderes me decifrar.

Agora eu posso sorrir, sinto-me apto a dar gargalhadas. Rir de você, da sua ilusão, do mundo e das pessoas que nele transitam. Pouco me importa se agora o futuro é incerto, o que será de nós ou o que será de mim. Eu vivo aqui, dentro de minha mente eu sou o senhor de tudo. Sou rei, déspota, guerreiro, ancião, filósofo e até eu mesmo se assim me permitir.

Sinto prazer em construir textos e palavras. Elas me vem a mente e as saboreio como um apetitoso e suculento naco de carne. As palavras me enchem de luz e êxtase e me jogam num salto infinito para qualquer lugar do mundo. Percorro deserto, montanhas, mares e oceanos. Me sinto um aventureiro por entre as linhas.

Um pouco de loucura pra vocês...




As vezes me vem, não sei de onde, surge não sei por quê um ódio de todos que passam. Olhos distraídos e desenganados. Quero moer-lhe os ossos. Quero ouví-los gritando com horror nos olhos.
Existe em mim uma fera adormecida que por vezes a vida torna. Quero impôr o medo, o terror e a dor. Vou lhe rasgar a carne da face. Beber-lhe o sangue e vê-lo queimando. Ah, vou sentar-me em minha poltrona de couro, ouvir uma bela sinfonia e quero sentir a saborosa fragância da sua carne em chamas.
Por que esses olhos de espanto? Dentro de cada um de nós existe um assassino, existe o prazer do sangue, o prazer de desossar um corpo e excitação ao ouvir os gritos de terror e dor. Sublime é segurar com as mãos um coração ainda pulsante e beber o sangue quente que verte das veias.
A minha vingança é divina, limpa, cirurgica. Não vivo nem trabalho na podridão. Mesmo quando torturo e mato, faço tudo com requinte, primazia, concissão e elegância.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Capítulo 1- Partida


Ela se levantou com sonolência. Olhou ao redor e sorriu. Tudo o que havia acontecido lhe passou num flash muito rápido. Ele chegando, eles conversando no sofá, rindo, cantando, a noite de amor. Ela olhou para o lado e não o viu lá.
"Ele sempre vai embora sem me chamar, já o conheço.". Mas isso não importava, o que importava era a ótima noite que havia passado com seu namorado. O namoro vinha abalado a um certo tempo, mas foi como se naquela incrível noite, nada estivesse acontecendo. Eles se apaixonaram novamente, tudo foi lindo e real.
Ela sorriu novamente. Se levantou, ajeitou a casa e a bagunça feita na noite interior. Roupas pelo chão, pratos e taças sujos. Ela arrumava a cama bagunçada, ainda com o cheiro dos dois impregnado nos lençois, quando ergueu um dos travesseiros.
Havia um envelope pardo debaixo do travesseiro dele. Dentro, haviam algumas folhas xerocadas. Ela olhou para tudo aquilo curiosa.
Uma carta, um xerox de uma passagem e um contrato.
A passagem era de um voo para o Canadá, marcado para aquele mesmo dia, dali a algumas horas, apenas uma passagem com o nome do seu namorado. A segunda folha, era uma carta de uma universidade oferencendo uma bolsa de estudos em Vancouver. A terceira era uma carta, escrita por ele explicando tudo.
"Eu sei que quando ler isso, estarei embarcando para longe de você. Talvez seja melhor assim. Eu planejei isso desde o momento em que eu vi que nosso namoro não daria mais certo. Eu queria que fosse assim: sem dor, sem sofrimento, sem tristeza. Eu precisava de algo que me levasse para longe de você. Eu amei essa última noite ao seu lado. Eu vivi essa ilusão como se ainda fosse verdade, quero guardá-la para sempre. Eu sempre vou te amar, seja onde eu estiver. Fique bem. Seja feliz. Eu te amo."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Tormenta


A paz chegou enfim. Depois de uma nebulosa e escura tormenta, o vento fresco voltou a soprar. Levou dor, levou tristeza, levou preocupações.

As ruas estavam molhadas e o sol, como num dia de verão, veio erradiar o dia, tímido, entre as nuvens. As pessoas saiam lentamente de suas casas, pisavam no chão molhado, atravessando os galhos caídos, as telhas quebradas, os postes tombados. O vento vinha fresco, leve, úmido, como se mandado por Deus, de modo a apaziguar os dias tempestivos que atingiram aquela pequenina cidade.

As pessoas iam pouco a pouco retomando as suas vidas. Suas feições ainda eram duras, assustadas. As mães recolhiam suas crianças nos dias mais escuros, homens voltavam a suas casas com o passo rápido, olhando para o céu. Apenas alguém se divertia com tudo.

Ele era um pequeno garoto, se auto chamava O Senhor das Chuvas. Travessura de menino. Apenas ele saboreava o escuro da noite, o escuro das nuvens, o tocar do vento, o frescor da chuva.

Nos dias em que o vento começava a soprar mais forte, saía ele na penumbra do fim de tarde. Ele se sentia o senhor do mundo com tudo aquilo. Aquele vento fresco, as luzes dos postes, a rua molhada, o silêncio da ausência das pessoas. O além da escuridão, o desconhecido, a força, o poderio das tempestades sempre o atraia. Ele amava os tornados, as chuvas, os ventos, os raios...

O Senhor das Chuvas sabia era apenas aproveitar a simplicidade da vida e as coisas que a natureza nos dá todos os dias. O Senhor das Chuvas sabia colher a beleza no meio da tormenta.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Eu sou o anfitrião da noite

Sou o anfitrião da noite. Sente-se em minha cadeira de madeira nobre e tecido trabalhado. Sinta o calor do fogo que erradia da minha lareira. Pode ouvir música que ecoa pelo ar?
Olhe para mim. Não se assuste com meus olhos tristes, por dentro desse ser explode a felicidade de te ter aqui.
Vejo que notou minhas roupas. Sim, trajo terno de alta costura, gravata de seda e ainda conservo meu relógio de bolso feito a ouro.
Meus gestos são exatos, desse modo sou firme e preciso.
Estes livros que nos rodeia são minha verdadeira riqueza, trago-os do passado e até do futuro, vieram com os quatro ventos. Atravessaram os sete mares e foram adiquiridos por muito ouro. Livros de páginas velhas, amarelas e carcomidas. Livros que relatam heróis, bestas e fatos. Guerras e estórias. São portais encadernados, e, se sua mente for livre o bastante, podem até levá-lo nessa maravilhosa viagem de contos. Eu sou o dono de tudo isso. Não sou duque, nem Rei. Nem barão, nem senhor. Sou dono do império do saber, sou mais rico que todos, sou deus onde devo ser.

Luxo


O meu luxo

é o luxo da loucura

Luxúria

Leitura

Lira

Liberdade

O meu lixo

é o luxo dos pobres


A minha mente

é o redemoinho

de todas as mentes

O que penso

é o que falta

a todos pensar


Não sou daqui

nem daí

Sou do que há

dentro de mim

Sou isso

e um pouco daquilo

Sou tudo

também sou nada


Me agrada o norte

e também o sul

assim o leste

como o oeste

Talvez eu seja isso

um ser a vagar

sem saber o que é

apenas a pensar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Contemplação


Ele se abaixou e a beijou no rosto. Ela dormia tranquilamente, os cabelos pretos e brilhantes caídos para trás. O lençol sobre seu corpo acompanhava suas curvas suaves e delicadas. A mulher dormia de modo sereno, com as mãos sob o rosto e as pernas entrelaçadas.


Ainda era noite, ele se levantou, sentou-se a seu lado e pôs-se a acaricia-la. Algo explodiu dentro dele, uma explosão de felicidade, de sorte, de alegria. Sentiu como se uma música tocasse pelo ar. Uma música suave, angelical e entusiasmática.


Ele deixou o sorriso tomar seus lábios e a fitou com olhos brilhantes. Ficava maravilhado o modo como seus dedos percorriam aqueles macios cabelos. Ficava fascinado com aqueles cabelos, amava-os incondicionalmente. Sim, os cabelos. Deixou seus olhos percorrerem todo o rosto da mulher. Passou pelos olhos, fechados e tranquilos. Percorreu o nariz delicado e chegou a boca. Ah, a boca era linda! Parecia-lhe moldada. Só de olhar vinha-lhe a lembrança da sua maciez, do seu sabor...


Ele ficou horas a olhando.


Ele a amava muito!


quarta-feira, 2 de junho de 2010

A partida de Heitor


Os soldados no alto da muralha apontaram para um brilho que percorria velozmente a planície. Como era de costume, tocou-se o sino de alerta e os soldados acorreram a suas armas e se postaram de prontidão para um eventual combate.


O brilho veio velozmente levantando a poeira do chão. Dado um tempo, perceberam os soldados que se tratava de um guerreiro portando uma incrível e bela armadura. Grevas, escudo, espada e elmo. Toda adornada de prata e fios de ouro.


Feito por Hefesto, filho do próprio Zeus. Mãos divina que dominam o metal.


Aquiles parou diante dos imensos portões de Tróia, olhou para o alto e comtemplou a grandiosidade da fortificação. Viu lá de cima cabeças que o observavam com curiosidade.


- Heitor!- chamou com sua poderosa voz.


Silêncio.


Heitor estava no seu aposento, se preparando. Na verdade, sabia desde o momento em que matara Pátroclo, que Aquiles viria com sede de vingança buscar sua morte. Era a ordem natural das coisas.


Um soldado veio à sua porta correndo.


- Senhor, um nobre guerreiro inimigo grita seu nome aos berros do lado de fora.


Heitor ouviu em silêncio. O soldado se retirou. Checou os últimos detalhes da sua armadura. Se armou de sua espada, sua lança e seu escudo.


Saindo pelos jardins encontrou sua bela esposa carregando seu filho no colo. Ela veio ter com ele, com os olhos assutados.


- Vejo que já sai para a batalha. Hoje não é dia de batalha, onde estão os seus que lhe acompanham? Não és louco de sair sozinho por essas bandas.


Ele a fitou em silêncio. Não quis chorar, mas já sentia sua falta. Sentia falta do seu calor, do seu olhar, do choro de seu amado filho. Ele, que dormia tranquilamente, isento de dor e de guerra.


- Agora, eu vou confrontar um valoroso guerreiro. É capaz que eu não volte com vida, se assim os deuses não o quiserem. O homem que enfrento é mais versado que eu em batalha. Lutarei por ti, minha amada e por essa pequena criança que dorme junto a ti, meu filho querido. Quando ele crescer e eu não aqui estiver, ensina-lhe a devotar os deuses, ensina-lhe os valores de homem, as práticas da guerra e versa-o em artes. Torna-o o mais valoroso príncipe de Tróia.


Os olhos de Heitor encontraram o de sua esposa. Não houve beijo, nem adeus.


Ele se virou rumo aos portões e saiu de encontro a Aquiles.

Aquiles chora Pátroclo


Aquiles abaixou a cabeça e chorou sobre o corpo de Pátroclo. Seu primo havia tombado por um ledo engano. Fora a batalha disfarçado com suas armaduras, fingindo ser Aquiles e quis o destino que lá encontrasse a morte na lâmina de Heitor, príncipe de Tróia.
Ao fim da tarde, sem saber do terrível ocorrido, saira de sua tenda para se banhar quando veio um cortejo trazendo um corpo. Era seus valorosos guerreiros, os Mirmidões, tropa um dia liderada por Peleu, seu pai.
Apertou os olhos e seu coração se encheu de tristeza por ver um dos seus morto ali, naquele fúnebre e triste cortejo. Eles se aproximaram com cautela, cheios de pesar.
O corpo ali deitado foi tomando forma aos olhos de Aquiles, os detalhes foram se revelando sob a penumbra do crepúsculo. Era Pátroclo, seu querido e belo primo. Lá estavam seus cabelos de ouro que outrora balançavam com o vento cheio de vida. Seus olhos, agora estáticos, ainda matinham o verde vivaz, apenas o brilho se ausentara dali. Seu rosto agora era pálido e assustador.
Aquiles avançou desesperado, seus olhos procurando rumo. Avançou para o corpo do primo, chorando, chamando por seu nome.
- Ó Pátroclo, o que fizeram a ti? Diz-me o maldito que lhe tirou a vida, que dele tirarei língua, orelhas e olhos. Farei-o caminhar cego, surdo e mudo pelo submundo dos mortos. Depois que matá-lo, darei-o aos abutres e assim que a fome lhe for saciada, dar-lo-ei que restou aos cães, para que roam os ossos do pobre infeliz. Matarei seus filhos e esposa. Para que o alento da morte não lhe seja pouco e que sofra ao ver que na morte lhe acompanhou todos os que mais ama. Eu juro Pátroclo, vingar-te-ei de modo cruel e brutal como assim lhe fizeram.
Naquele momento correu um frio na espinha de todos os guerreiros ali perto. Aquiles, líder dos Mirmidões enfim se ergueria para lutar na batalha.

Rotina da vida


Eu pareço um idiota rindo. Na verdade eu nem sei porque fico rindo se não acho graça na maioria das coisas.

Sabe, estou ficando sem espaço nisso aqui. Não suporto essa sujeira, não suporto essa ignorância, não suporto essas besteiras espalhadas pelo mundo, não suporto mais o homem e suas idiotices.

Tudo bem, sou um revoltado, sou um bobo, sou um chato. Sou tudo isso que você está pensando e mais um pouco. Mas é que sabe quando você sente que tudo é muito diferente de você? O lugar, as pessoas, as coisas, os fatos e tudo mais. Na verdade, não quero morrer nem nada disso, mas quero que as coisas se modifiquem, tenho esperança ainda com isso.

Não quero que a vida siga sua ordem natural e normal, é tudo tão tedioso. Quem sabe uma grande aventura, um cataclisma, um caos. Fatos desse tipo fazem de nós homens seres valorosos, honrados, agradecidos. Sim, "agradecidos", temos que aprender o valor desse chão que pisamos.

Não queiram me entender, por favor. É impossível desvendarmos a mente humana considerando que não conseguimos descobrir nós mesmos.

Eu só queria viver uma aventura, um risco de vida, algo pelo que lutar. Sabe, fazer um esforço pra viver e ser feliz nessa vida inútil. Eu pelo menos fico esperando algo de emocionante acontecer, algo que me tire da rotina.

Quero dizer um porém. Não fique achando que eu odeio a rotina da vida. Eu amo a rotina da vida, a ordem natural das coisas. Eu só quero sair um pouco da rotina. Fazer algo emocionante para que eu possa contar uma história ou talvez nem contar. Não importa mesmo.

Um dia vou pegar minha mochila, me enfiar nas montanhas e por lá vou viver muitas aventuras. Quem quiser partilhar comigo essa empreitada, que venha! Eu vou voltar e vou contar muitas histórias e você ficará maravilhado, com os olhos reluzindo com tudo que vou revelar. Uma explosão de excitação vai percorrer seu corpo e você irá querer colocar o pé na estrada e partir.

Pode dizer que sou um louco.

Tchau!


"Você deve rezar para que o caminho seja longo, cheio de aventuras e experiências."-Constantine Peter Cavafy

sábado, 29 de maio de 2010

Ponto de ônibus


- Amor?- diz ela com ternura na voz.
- Oi?- pergunta ele, displicente.
- Você me ama?
- Claro que te amo, por Deus, por que você está perguntando isso?- pergunta com surpresa.
- Ah, porque não parece- diz ela com chateação na voz.
- Lá vem você. Começou.
Ela olha pro chão.
- É que parece.
- Amor, pode parar com essa besteira. Te amo muito, mais que ontem, menos que amanhã.
Ela fica em silêncio, pensativa. Ele puxa seu rosto com a mão, a beija nos lábios, mas o beijo dela é frio. "Enrascada" pensa ele.
- Olha, pode parar com isso, eu te amo. Para com essas ideias.
- Não é ideias, é verdade, você nem me ama mais como antes. Você ama a outra.
- Outra?! Que outra.
- Aquela.
- Qual?
- Aquela que você sabe qual.
- Ah tah.- diz ele incrédulo- vai começar a falar dela de novo?
- Vou! Eu sei que você gosta dela, você ainda a ama, ela é sua cara metade.
- Dá pra parar? Eu amo você, não quero saber de outra. Você é meu amor!!!
- Sou?!
- É!! Minha linda.
- =)
- Te amo.
- Eu também te amo muitão amor!
...
- Amor?- diz ela.
- Oi?
- Quando a gente vai se ver de novo???

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sempre ao seu lado


Eu estou nessa cama gelada de metal e não sei o que dizer. Eu sinto dor, mas isso não importa, você está aqui ao meu lado. Eu sinto também muito medo, mas eu confio em você, afinal, você está aqui do meu lado.

Por um momento eu fecho os olhos e me lembro de tudo aquilo que vivemos. Tudo o que vivi ao seu lado. Todas as brincadeiras, as noites de frio em que dormi com você debaixo da coberta, nos dias de chuva em que corremos na rua e das brigas que fugimos. Das noites em que dormi no celeiro, das nossas incursões pela floresta, do cheiro dos pinheiros, do vento tocando meu corpo. Da lua.

Você então se aproxima e toca meu pêlo delicadamente, vejo uma lágrima correr no seu olho. Não sei porque está chorando, embora eu esteja me sentindo mal e estranho, tudo vai ficar bem. Eu tenho certeza de que tudo vai ficar bem.

Surge na porta um homem de rosto sério, usando um paletó branco e alguns objetos na mão, você não o vê, esta de costas para ele, me acariciando, chorando sobre meu corpo. Ele pigarreia e você se vira. Então ele fala demoradamente, fitando-o direto nos olhos.

- Senhor, está na hora.

Eu sinto sua mão tremer sobre minha pele e então apertar meu pêlo, como se quisesse agarrá-lo. Você olha para mim mais uma vez, seus olhos estão cheios de lágrimas.

Fico confuso.

Você aproxima seu rosto bem perto do meu a ponto de tocar e então me abraça, me abraça forte, sem se importa com a dor que sinto nas juntas. Sinto seu corpo tremer violentamente, desesperado, não querendo me soltar.

Pela primeira vez sinto medo. Não medo do que vai acontecer, mas pelo modo como você está agindo.

- Adeus meu amigo- diz você- me desculpa.

Então você se cala. Ou melhor, algo em sua garganta te cala.

O home de jaleco branco se aproxima com uma agulha na mão, ele olha para mim com piedade no olhar. Toca meu corpo delicadamente e penetra agulha em mim. Passa um tempo, sinto a dor ir embora. As ideias e as lembranças vão me escapando como água, não posso segurá-las aqui perto de mim. Tento chamar você. Sinto medo. Não se afaste de mim. Tudo vai ficando escuro, não ouço mais nada, a visão vai escurecendo. Não tem mais dor, nem som, nem frio, nem nada.

Então tudo fica escuro, minha última lembrança foi seu rosto, seu toque, sua voz. Não tem mais medo, nem dor, nem sofrimento.

Agora onde estou, eu posso vigiá-lo. Você não me sente, não me vê, não me percebe. Mas eu estou aqui, seja no vento ou nas árvores.

Eu estou aqui...

Sempre que ouvir um latido na floresta ou em algum lugar e não souber de onde veio, serei eu, na minha mais expressiva presença, te chamando pra brincar.

Eu sempre estarei aqui...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Anjo triste


Existe um anjo que chora.

Ele chora feito os anjos dos vitrais.

Ele é o único anjo que chora. Ele chora solitariamente e copiosamente. Seu olhar é vazio. Sem vida. Triste.

Esse anjo sempre chorou, por dentro e por fora. Esse anjo não tinha nome, nem identidade, nem cor. Passavam por ele, notavam sua tristeza e lastimavam sua beleza tão divina em profunda solidão.

O anjo não se movia, não falava, não ria. Só chorava...

Suas asas, por não bater, cairam.

Seus olhos viraram vidro que só faziam jorrar lágrimas.

Sua pele, sem movimento, virou pedra.

O anjo fora esquecido. Não olhavam mais para ele, não reconheciam sua dor e nem suas lágrimas.

O anjo nunca parou de chorar. O anjo nunca curou sua angústia infinita.

O anjo fora humano.

O anjo conheceu a dor e a tristeza dos homens. Ele viverá na pele tudo aquilo que o homem viveu. Então chorava. Chorava por os que aqui embaixo também sofriam, chorava pelas perdas, pela falta de felicidade, pela falta de amor.

O anjo fora humano... O anjo ainda era um humano.

O anjo nunca parou de chorar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Remetente: Eu


Ah, não joguem para cima de mim esse mundo hipócrita e sujo. Não quero ver mais nenhum de vocês que se ausentam virem com seus sorrisos largos e sujos me pedirem ajuda pra suas necessidades inúteis! Não peçam minha mão, porque eu não estenderei. Aos que me criticaram, aos que me esnobaram, aos que não me viram de fato. Eu não hei de vê-los, viro-me para o mundo, já que me assim foi feito!

Deixem este homem em paz!

De fato, gosto de escrever lá minhas loucuras, minhas melancolias, meus temores, as dores mais sentidas e pertubadoras do mundo.

"Inclino-me a escrever melancolias de modo que veja o ser que grita sem voz dentro de mim. Toma-me por fim como um anjo de asas negras, como um corvo carniceiro e sombrio que grasna do alto de uma cruz."

Humanos! Sempre senti um asco por essa espécie. O único animal que pensa que não é um animal. Sente-se a vontade para esclarecer os fatos e dizer no alto de sua sabedoria "Somos os únicos animais racionais".

...Diga-me: Onde existe racionalidade em nós?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sertanejo pobre


Ele abaixou a cabeça mais uma vez e chorou. Triste, sozinho e com fome.

Ele permanecia ali como uma estátua, tudo ao seu redor se alterava, se movia, evoluia. Menos ele.

O sol foi se pondo lentamente, sem esperar por ninguém. Veio então as luzes alaranjada dos postes e com elas vieram os arruaceiros, os drogados e as prostitutas. Ele permaneceu ali.

A terra prometida não fora como ele sonhara.

Ninguém disse isso a José quando ele ainda estava no seu agreste capinando a roça seca.

Por fome dos filhos, arrumou suas trouxas e pôs o pé na estrada. Sem saber o que iria encontrar, sozinho, com saudade, cheio de dor.

Chegou a cidade das oportunidades. Não haviam oportunidades. Nem dinheiro. Nem comida. Nem volta. Encontrou de consolação a sarjeta, ela, que não cobra taxa, nem juros, nem forma de pagamento alguma.

Deitou-se então no chão frio da calçada, sem coberta, sem comida, sem travesseiro. Pôs-se então a chorar. Chorou a saudade dos filhos, da mulher, do pai e da mãe. Chorou saudades da sua terra e pediu a Deus para voltar. Implorou com todas as suas forças que queria voltar a sua desolada terra e que de lá nunca mais iria sair.

Sentia frio. Fome. Saudade. Tristeza.





José não amanheceu vivo aquela manhã. Por fome, frio ou saudade. Foi enterrado como indigente.

Sua família nunca mais recebeu notícias suas. Passaram fome, frio, tristeza, saudades do pai.




Trecho do Auto da Compadecida (Nossa Senhora falando)


" João foi um pobre como nós, meu filho, e teve que suportar as maiores dificuldades numa terra seca e pobre como a nossa. Pelejou pela vida desde menino, passou sem sentir pela infância, acostumou-se a pouco pão e muito suor.

Na seca, comia macambeira, bebia o suco do xique-xique, passava fome.

E quando não podia mais rezava. E quando a reza não dava jeito, ia se juntar a um grupo de retirantes que ia tentar sobreviver no litoral.

Humilhado...

Derrotado...

Cheio de saudade...

E logo que tinha notícias da chuva, pegava o caminho de volta, animava-se de novo, como se a esperança fosse uma planta que crescesse na chuva. E quando revia sua terra dava graças a Deus por ser um sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé."

sábado, 15 de maio de 2010

Libertas


Chegará a hora em que meu espírito pedirá os céus e eu, num ato de coragem, me lançarei no mais alto dos penhascos, com asas abertas. Então eu vou planar em círculos tranquilos sobre as planícies verdejantes, sobre as imponentes montanhas e sobre os revoltos rios com corredeiras. Meu espírito pedirá para ser livre, livre para vagar sobre qualquer chão desta terra. Meus pés pedirão o pó deste solo. Meus olhos chorarão as mais belas paisagens. Minhas mãos irão tocar cada rocha deste planeta.

Riscarei os céus como um cometa flamejante.

Eu sou o que eu quero ser. Eu posso ser aquilo tudo que pretendo.

Quando eu me ausentar daqui, saiba que por um momento eu corro com os cavalos na planície.

Eu estarei voando com as águias sobre as montanhas.

Eu estarei caçando com os coiotes da floresta.

Chama-me de louco. Chama-me de indiscreto. Chama-me de alucinado. Eu sou o que sou, seja onde for.

Não me agrada o mundo frio do homem. Não me agrada a vida monótona. Não me agrada a mente humana.

Sou dado a aventuras físicas e mentais. Quero percorrer sempre com mais velocidade os desconhecidos caminhos do mundo e da mente. Quero dominar cérebro e terra. Quero poder tocar com as mãos os quatro ventos do mundo. Quero conhecer cada detalhe do conhecimento profundo reservado apenas ao homem. Eu quero tudo! Minha ganância irrefreável torna mais belo o meu ser. Eu posso. Eu quero. Eu sou.

Há um leão dentro de cada um de nós que ruje e que urra para ser ouvido. Ele arranha as grades da sua mente com suas poderosas garras. Deixe-o sair!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vida rouba vidas



Um suicida sempre deixa como seu último ato, um escrito. É a forma mais triste de se transmitir a alguém o que sente. O suicida faz isso.


Os suicidas estão sozinhos, sofrendo solitários, desamparados. É na morte em que encontram o último modo para que todos se sintam obrigados a olhar para eles, que prestem atenção no seu sofrimento, que sintam ao menos alguma dor de não tê-lo por ali. A grande maioria dos suicidas não se matam para acabar com a dor e sim, bem no fundo, para que possam gritar: "Ei eu estou aqui, ainda penso em você, mas você já não pensa em mim e tudo isso tem acabado comigo!"


Como li num trecho de um livro de Machado de Assis, algo mais ou menos assim: "Há um ato comum entre os suicidas, que é o hábito de deixar algo escrito...".


Existe algo sádico nos que praticam tal ato, se tornam tão melancólicos a ponto de virarem maus. Sentem uma certa alegria em poder ver o futuro. Ver todos que um dia lhe deram as costas chorarem sobre seu caixão. Quer impôr todo seu sofrimento interno nas pessoas, fazê-las sentir um pouco de sua dor.


Reprimido, calado, incompreendido, excluído, apagado. O suicida sente que na morte, de algum modo, pode introduzir um pouco de sua dor em outros e nas suas trêmulas cartas encharcar o coração dos sofridos com um pouco mais de angústia e sofrimento. Não lhe basta sua própria dor incontida, há a necessidade de dissipá-la no coração de todos. Mesmo no coração dos seus amados.


Não se termina uma carta suicida com "Vivam bem, felicidades, sejam felizes".


Termina-se com "Em algum lugar estarei vivendo... Estarei bem... Parei de sofrer... Amo vocês."






Eu, particularmente, não deixaria carta. Talvez deixasse. Mas não permitiria que meu corpo fosse encontrado por alguém que amo. Morreria como uma ave: isolado, sozinho. Encontrariam minha carta algum tempo depois, nalgum lugar. Triste, melancólica, desesperada.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quantas saudades eu senti...



A eles...


... que não se deixam corromper.


... que não se deixam magoar.


... que não se deixam trair.


... que não se deixam abalar.



A eles, lindas criaturas que vieram ensinar ao homem uma lição que ele teima em não aprender. A eles e a todos os bichos, que desconhecem os pecados mundanos reservados apenas ao homem.



Olhos puros. Olhos sem maldade. Olhos sem pecado. Olhos sem vaidade.



Agora, eu, Luigi, vos confesso:


Sinto saudades dos meus dois únicos cães, companheiros e irmãos que tive em minha vida.


Sou capaz de chorar ao me lembrar de cada um deles.


Criaturas capazes de dar a própria vida pela minha. Que me amaram incondicionalmente, mesmo quando eu os deixava de lado por outra coisa. Que me recebiam com seu sorriso no olhar. Com seus saltos e giros felizes. Sempre prontos a me receber. Que poderiam ficar ao meu lado o resto de suas vidas, pois já lhes bastava viver perto de mim.


A vocês, Irã e Killer, eternos amigos. Bons amigos.


A você Irã, que foi mais como um cão-pai. Cresceu comigo e até ajudou meu pai a nos educar, eu e meus irmãos. A você, belo Fila Brasileiro, majestoso, de sangue puro e campeão. A você que eu tenho certeza que está em algum lugar. Que ainda vive!


A você Killer, meu pequenino irmão. Tão travesso! Você que eu tanto amei e não demonstrei. Eu por muitas vezes me esquecia de você. Fui para longe. Foi cruel o modo como se foi e eu me sinto mal por não ter aplacado seu sofrimento e sua dor. Esta será uma dor jamais curada em mim.


Não há vivalma nesse mundo como vocês.



Ah como eu sinto saudades dos seus olhares. Do seus cheiros. Do pêlo macio, do latido.



Eternamente em nossos corações.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O chamado selvagem


Não importa o que eu faça, onde eu chegue, como eu esteja. Antes que se chegue o fim eu terei percorrido muito chão, vivido muitas aventuras, contemplado muitas paisagens.

Influenciado por muitos, eu quero caminhar até o norte, no limiar da aventura, em deslumbrantes locais com perigos e belezas.

Parece-me que todo o meu objetivo de vida se encontra escondido na montanha mais obscura, esperando sempre que eu avance mais, sempre pro maior topo, sempre pro maior perigo, me chamando pra provação final. Uma última provação nunca imaginada e como resultado a satisfação plena e completa da vida. Então por ali mesmo eu relaxarei, erguerei meu belo e confortável chalé e por ali mesmo vou viver. Sairei na varanda e verei as montanhas e a lua, majestosa subindo aos céus, tímida. As montanhas serão gigantes guardando minha moradia. Subirá fumaça pela chaminé e então virão todos os animais comer de minha mão. Ursos, lobos, alces, esquilos e caribus.

Sempre haverá fogo na lareira, frio na soleira e neve na madeira. Estantes recheadas de livros de aventura, uma caneca de café quente e rede para leitura.

Meu espírito é das árvores, dos bichos.

Minha alma corre junto com os lobos.


Luigi Rajão

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O Interior do Alasca


Eu gostaria de adquirir a simplicidade, os sentimentos nativos e as virtudes da vida selvagem; despojar-me dos hábitos artificiais, preconceitos e imperfeições da civilização; (...) e encontrar, em meio à solidão e grandeza do Oeste selvagem, visões mais corretas da natureza humana e dos verdadeiros interesses do homem. A estação das neves seria a preferida, para que eu pudesse experimentar o prazer do sofrimento e a novidade do perigo.


Estwick Evans

terça-feira, 4 de maio de 2010

Saudades do meu irmão


"Saudades do meu irmão".

O pequeno garoto dizia para a mãe.

Uma lágrima escorria no rosto da mulher com o filho no colo. Não havia como responder a pequena criança que seu pequenino irmão se fora para sempre. Arrancado da vida de todos drasticamente, deixando uma buraco negro e profundo no coração de todos.

O garotinho ainda chorava a partida inexplicável do irmão. "E agora, com quem brincar? Quando ele vai voltar? Por quê ele não avisou que estava indo?"

"Pede pra Papai do céu cuidar do seu irmão, filho, pede.". Ele não entendia porque sua mãe falava aquilo, afinal, porque Papai do céu tinha que cuidar de alguém que tinha viajado por alguns dias?

Um dia, sua mãe chorando lhe disse: "Meu filho, seu irmão agora está com Papai do céu, olhando pra você, ele sempre vai te proteger, sempre estará ao seu lado. Agora ele é um anjo que está lá no céu.". Ele entendeu, era criança, mas a realidade se abateu sobre ele. Nunca mais veria o irmão que tanto amava. O irmão que sempre estava ao seu lado. O seu melhor amigo.

O quarto era mais escuro agora, mais frio, mais solitário. As roupas do irmão ainda estavam no guarda-roupa, os brinquedos na estante esperando que alguém os tocasse.

Ele nunca voltaria. Seu irmão se fora. Seu amigo.

"Saudades do meu irmão"- dizia ele todo dia.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Abandonado


Sentia ele que chegavam seus últimos momentos. Olhou ao redor com tristeza, pensando onde fora deixado, depois de tanto carinho doado, tanto esforço para com os seus. Era um triste fim a se chegar, justamente ele, homem honesto, bom pai, bom avô. Levantou-se com dificuldade, os ossos estalaram, avisando, cobrando o peso da idade. Nada mais funcionava como antes.

Certa noite, com a desculpa de que ficaria ali por alguns tempos até que voltassem de uma viagem, foi enganado e por ali ficou, anos e anos. Quase nunca o visitavam, quase nunca ligavam para saber como ele se encontrava. Não que não gostasse daquele local. Nada disso! Fizera muitos amigos por lá, ótimas pessoas. Mas ali era um lugar triste, com ar de abandono, onde residiam abandonados como ele.

Encaminhou-se para a cama, lentamente, desejando intensamente que aquele fosse seu último dia. Não culpava seus filhos, eles que vivessem a vida deles, mas ele não suportava mais a sua própria solidão na qual fora confinado. Sentiu que chegara sua hora e aceitou de bom grado o término. Tudo que nasce chega um dia ao fim. É o cliclo natural da vida, assim determinado, só resta aceitar.

Deitou lentamente, puxou as cobertas para si e ficou fitando a janela com seus olhos tristes. Olhos melancólicos. Piscou tristemente suportando a dor. Saberia que iria embora em instantes, pressentia isso. Lentamente as dores do corpo foram diminuindo, tudo se tornou sereno, calmo. Sentia-se como criança novamente. Não sentiu medo, apenas alívio, uma estranha felicidade. Um descanso.

Um véu negro e suave foi descendo sobre sua vista. Antes que tudo se apagasse o velinho respirou fundo e emitiu seu último dizer, como um grito do corpo que uniu as últimas forças para falar: Perdoai-me pelo que fiz, ao qual me condenou a esse triste fim. Perdoai-me.

Assim ele se foi, num repouso sereno e melancólico. Descansou.